E ainda assim, na despedida, ela não faz questão de fazer a diferença. Fez questão de voltar lá para não dizer nada, e como sempre: quase surpreendeu. Seguiu-o como uma sombra, pelos vales escuros e quentes por onde transitam os cães e também os homens.
E ele, aquele pobre diabo de sempre, dependente quimiopsicofísico de injeções de surrealismo em sua vida monótona, esperou. E mesmo não querendo, esperou. Sabia que estava se traindo. Sabia que não deveria esperar, porque a cada vez que esperava, sabia que ia ser deixado esperando. Mas mesmo assim esperava. Esperava atitude, espirituosidade, originalidade, criatividade, imaginação... e todos os outros sinônimos da palavra alma.
Mas ele sabia que aquilo que o seguia era apenas uma sombra. Uma sombra de alguem que ele pensou ter visto uma vez. Estava enganado. Não tinha visto ninguém, só tinha visto a sombra porém tamanha era sua necessidade de dividir-se, multiplicar-se, que viu na sombra os detalhes claros de quem procurava.
E durante muito tempo transferiu-se de alguma forma para a sombra, e assim, ela lhe levou uma parte da alma, tornando densa e emaranhada a trama de tentáculos que os uniam.
Enquanto isso ele sempre se perguntava, por quê sombra, não deixas de ser sombra? Mas a sombra, sombra que era, não respondia. E quando alguma coisa o incomodava, ele dizia para a sombra, cuja voz nunca ouvira. E quando essa coisa que o incomodava deixava de incomodar, a sombra mudava-se e tornava-se outra sombra, porem, ainda sombra.
Algumas vezes ele chegou a pensar que estava seguindo a sombra, mas ela era esperta, e sempre era ela que o seguia.
Um dia a sombra resolveu dizer alguma coisa, mas sombra que era, não disse nada. Ele ouviu apenas o eco do que disse alguem, alguma vez.
Até que um dia percebeu que aquela pessoa de quem ele pensou a sombra ser; aquela pessoa que procurava, não era ninguém senão sua própria sombra.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
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